Amilcar de Castro – Repetição e Síntese 

12 de novembro de 2013 | 27 de janeiro de 2014

CCBB Belo Horizonte

 

Dobras de tempo

O mineiro Amilcar de Castro (1920, Paraisópolis, MG - 2002, Belo Horizonte, MG) foi um dos criadores - ao lado de Lygia Clark, Ligia Pape e Hélio Oiticica, entre outros - de vertente fundamental do movimento construtivo brasileiro, o Neoconcretismo. Esse movimento configurou-se no Rio de Janeiro, no final da década de 1950, e seus principais teóricos foram os críticos Mario Pedrosa e Ferreira Gullar.

A grande invenção escultórica de Amilcar foi seu método construtivo denominado de corte e dobra, que consiste em, a partir de um plano, inscrever uma forma e lançá-la ao espaço de três dimensões, através de uma operação muito simples de corte e dobra do plano. Esse método, revolucionário na história da escultura, pode ser aplicado tanto a uma folha de papel como a uma chapa de ferro de várias polegadas de espessura e muitas toneladas de peso. Sua matéria primordial de criação de esculturas foi o aço Cor-Ten, diretamente ligado a Minas Gerais, sua terra natal. Mas foi através do papel que Amilcar tornou-se um dos principais artistas gráficos brasileiros, tanto por sua produção de gravuras e desenhos quanto por sua produção como designer gráfico: foi ele o responsável pela primeira grande reforma gráfica de um jornal brasileiro dentro de princípios modernos, o Jornal do Brasil, no final dos anos 1950. Essa reforma influenciou todo o desenvolvimento posterior das artes gráficas no Brasil.

Ocupando um espaço definitivo na história da arte brasileira, a obra de Amilcar de Castro reúne um universo plural de criações: além de esculturas em ferro, ele utilizou também a madeira, o mármore e o vidro. Aluno de Alberto da Veiga Guignard, foi um desenhista obsessivo, produzindo durante toda a sua vida milhares de obras gráficas entre desenhos, gravuras e pinturas de grandes dimensões que, por suas características profundamente gráficas, denominava também de “desenhos”. Produziu ainda design de objetos e joalheria.

O mistério da escultura de Amilcar de Castro reside no fato de que cada uma delas é sempre a mesma e outra. Elas nunca se superpõem em suas similaridades, pois o aparecimento de cada uma causa um deslocamento surpreendente em relação à precedente. Poderíamos aplicar à obra de Amilcar uma ideia comum às análises da música de Bach: aquela de uma espiral ascendente. A acumulação densa de obras de Amilcar em um espaço delimitado revela a íntima articulação e entrelaçamento entre elas, em um redemoinho vertiginoso que se estrutura em um movimento circular de retorno, de repetição sistemática de sua lógica construtiva, e, ao mesmo tempo, de avanço ao desconhecido e surpresa diante do inesperado.

Assim, se diante de cada escultura de Amilcar há sempre um reencontro, também é verdade que há sempre uma descoberta. O olhar é conduzido a uma volta e, simultaneamente, lançado ao desconhecido, ao inusitado, ao novo. O que se apresenta como sua matéria estrutural, portanto, é um movimento circular de espaço-tempo que, entretanto, não permite que se unam as pontas do círculo: uma das pontas está sempre uma nota acima, subindo, em lenta espiral para fora do plano. A outra, em movimento inverso, retorna sempre a sua origem, ao plano, sua fonte única. Assim, o retorno nunca nos leva ao mesmo, ao já sabido, porque nessa volta somos reconduzidos sempre ao plano, ao espaço vazio e indiferenciado do plano: espaço oco de referenciais e narrativas, origem de toda a obra de Amilcar de Castro, de onde, logo depois, seremos relançados em surpresa ao espaço tridimensional. Em Amilcar o plano é prenhe de todo o movimento. 

A exposição Amilcar de Castro - Repetição e Síntese, realizada no recém-inaugurado Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte, busca apresentar um panorama o mais amplo possível da criação do artista, reunindo um grande conjunto de obras oriundas das três principais coleções existentes: a do Instituto Amilcar de Castro, a de Marcio Teixeira e a de Allen Roscoe e Thaïs Helt, todas localizadas em Minas Gerais. 

Poderão ser vistas no CCBB-BH, entre outras obras reunidas, o conjunto completo das 140 esculturas de corte e dobra, realizadas durante a vida do artista, suas pinturas de grandes dimensões dos anos 1990, seus extraordinários desenhos feitos com nanquim, suas esculturas em aço chamadas de corte, algumas esculturas em grandes dimensões, um impressionante conjunto de esculturas de madeira realizado no final da vida do artista, desenhos de projetos de esculturas, obras históricas e uma grande coleção de suas gravuras, incluindo algumas experimentais das quais existem apenas exemplares únicos. 

Evandro Salles
curador da exposição