Transbarroco – Adriana Varejão

19 de agosto | 26 de outubro de 2014

Oi Futuro Flamengo

 

Transbarroco é uma obra que exige atenção especial porque se trata de uma abordagem acerca não apenas da ampliação do período conhecido como barroco, mas também de núcleos simbólicos e de linguagens que se tornaram palpáveis ao longo do tempo, engendrando forma, cor e ritmo na cultura e no corpo do homem brasileiro.

Nesse sentido o termo “transbarroco” de Adriana Varejão vem aproximar-se do “neobarroco” de Severo Sarduy, do “ultrabarroco” mexicano de Gerardo Murillo, da noção de barroco de Haroldo de Campos que o considerava “uma das constantes da sensibilidade brasileira”, e principalmente de Affonso D’Ávila que o define belamente como “o dilatado pacto lúdico”. O transbarroco da artista retoma uma matriz vivificante, mais que estética, rítmica em nossa inventividade, cuja ressonância é uma realidade marcadamente contemporânea no universo visual.

Para apreendê-lo hoje, é preciso buscar distinções sutis entre o imediato e suas relações com componentes subjacentes que mais nos espreitam do que são espreitados, no leque de ações culturais que se dão em vários pontos do país. Sim, porque há uma totalidade de fatores que foram se dando no espaço e no tempo. E como um movimento não sucede a outro automática e mecanicamente, o que veio do barroco, pano de fundo que serviu de formação do olhar, do falar e do ser é da esfera da necessidade da sobrevivência e dos afetos. Mesmo aqueles ainda mais distantes como a presença chinesa que aparece na videoinstalação como pletora sanguínea, na qual a artista nos faz vislumbrar a pintura chinesa no barroco mineiro, com sua cor, espaço e figuras a nos mostrar múltiplos fenômenos da natureza como se fossem um poema humanamente teatral.

Adriana Varejão ao criar o termo “transbarroco” nos propõe um atravessar dinâmico que captura Portugal, China, África, América, em sons, cores, formas, falas, textos, imagens, fragmentos temporais que exclamam sua presença viva no cotidiano do Brasil: tudo é mestiço. E o barroco nos deu algum opulento manancial cujo sabor está a nos atravessar e a nos dispor diante de algo que se define em nós.

O português, o índio, o negro e depois os mestiços, os pardos, os mamelucos, os cafuzos, os mulatos e todos aqueles outros que vieram em ondas migratórias se deixaram entrever em mestiçagens fabulosas e inéditas e tenderam também a precipitar esse ritmo: do corpo à fala, da fala à escrita; do corpo à ginga, da ginga à dança, da dança à musica, da música à dança e ao carnaval, à teatralidade, à eloquência física e ao repique sonoro dos tambores, baianos, mineiros, cariocas, manauaras, capixabas, paulistas, em mestiçagens visuais e sonoras cuja classificação. É cada vez mais difícil, porque mais cores vêm vindo e mais linhas sinuosas serpenteiam o espaço, crescem e se multiplicam. Contudo, não há um ponto preciso e definido, há sim legítimos modos de conexões de linguagem que vêm se refazendo de longe, em seus amolecimentos sinestésicos.

Entretanto, é importante considerar que a artista vê nessa formação a mestiçagem e vê mestiçagem no barroco, por essa razão e por ter o barroco se estendido por longa data no Brasil é que seus códigos talvez tenham adquirido relevância física na cultura, na arte e mesmo em nosso modo de projetar o ser, como uma variável espiralar que aparece como forma de expressão, o elemento genético ou a linha infinita de inflexão, que se lê em Deleuze a partir de Leibniz.

Assim, o barroco parece ter irrigado de forma e cor tamanha população. Tal irrigação que torna amável pérola o samba de Wilson Batista na voz de João Gilberto quando diz “eu nasci num clima quente, você diz a toda gente que eu sou moreno demais” –, voz que continua amolecendo as palavras em elipses infinitas.

Alberto Saraiva 
Curador da exposição