Título 4

Bliss, escrito por Katherine Mansfield e publicado em 1918, é um de seus trabalhos mais conhecidos e icônicos. Bliss é uma palavra quase intraduzível, assim como o universo feminino descrito neste conto. Mansfield constrói, com delicadeza e ironia, um texto que fala sobre as mulheres e seus sentimentos diante da norma e da opressão. Sua linguagem densa e subliminar tornou-se a grande referência para mulheres escritoras. Concebido em plena efervescência da primeira onda do movimento feminista, Bliss é hoje consagrado como a expressão literária mais completa daquele momento.

 

Em 1981, 63 anos depois, Ana Cristina Cesar, poeta também referência da escrita de mulheres, se aventura na tradução de Bliss como trabalho final de mestrado na Universidade de Essex, na Inglaterra. A poeta investe na ambiguidade e intensidade do texto de Mansfield e escreve O conto Bliss anotado, enfrentando o mar aberto da tradução literária. O resultado foi a tradução/criação de um conto relativamente curto com oitenta notas de rodapé, iluminando as infinitas possibilidades de interpretação e leitura da palavra literária. 

 

Hoje, Cristina Flores e Leticia Monte propõem uma nova tradução. Desta vez, a transposição de linguagem para a cena contemporânea, com a criação de um espetáculo-instalação tendo como ponto de partida a tradução-tese de Ana Cristina Cesar do conto de Katherine Mansfield. Com orientação de pesquisa de Heloisa Buarque de Hollanda e direção de movimento Ana Vitoria, Êxtase anotado é formado por duas instalações penetráveis sobrepostas: a primeira é sonora e imersiva, enquanto a segunda é espacial.  

 

A instalação sonora é composta a partir da narração gravada do conto Êxtase (Bliss), interpretado por Alamo Facó, Branca Messina, Drica Moraes, Ismar Tirelli Neto, Lola Sanchez e Mateus Solano, além das duas criadoras. Êxtase anotado inaugura, na cena teatral, o uso da tecnologia Dolby Atmos, que faz o som se movimentar num espaço tridimensional que transporta o público para dentro da ação. A instalação espacial é constituída por uma enorme mesa plantada, um jardim de plantas-coração, um ‘viveiro-célula’ inspirado no conceito de Cells da artista Louise Bourgeois e na experiência dos penetráveis de Helio Oiticica. Em Êxtase anotado, o som, a cadência e a imaginação do público são elementos referenciais. A ausência de hierarquia entre os seus elementos constituem a polifonia desta obra inédita que propõe o cruzamento entre linguagens artísticas e reivindica uma cena expandida. Ao mesmo tempo, esta cena se constitui como uma escultura sonora, física e performática.

Concepção, Direção, Dramturgia e Performance: Cristina Flores e Leticia Monte
Textos: Ana Cristina César e Katherine Mansfield
Direção de Produção: Sérgio Saboya

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